terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Olhares



Para Nani Oliveiras

- Gosto do jeito que você olha! 

- É? De que jeito?

- Estou falando de fotografia! Suas fotos!

- Ah! Pensei que fosse meu olhar de mulher!

- Desse eu não gosto, não!

- Por que?

- Sei lá! É cismado! Dá um desassossego! Parece que vou capitular antes de lutar...

Os olhos se fixaram, enterneceram, se fecharam e conheceram a profundidade.

domingo, 30 de abril de 2017

Comentários a respeito de Belchior


Quando você tocou meu coração
suas mãos nem se fecharam,
mas quando suas palavras
tocaram minha mente
Ela se abriu para sempre.

Nem sei quanto o tempo brinca com a gente,
sei, que o que se foi, será sempre o agora,
o sempre.
Fique no meu caminho,
eu prefiro andar contigo!

"Oras", diria você,
“A felicidade é uma arma quente”,
parafraseando Lennon e McCartney,
E eu buscaria em Maiakovsky
e te perguntaria:
É assim que se honra um poeta?

Sei que você se desesperava
enquanto estávamos todos aqui,
perplexos e sonhadores.

Deixando a profundidade de lado
e só me apegando em coisas rasas do cotidiano,
eu só queria escrever um tango argentino,
que me cortasse como faca
essa ausência imensa,
como o meu, os nossos pais,
nos ensinaram como que é

o modo correto de expor a dor.

Eu sei, que assim falando, pensas
que essas palavras possam soar como corriqueiras em 2017,
mas, quem filosofou na vida
há que entrar para as páginas de nossos corações e mentes.
Para sempre!

Afinal, ainda somos os mesmos
e sofremos, como nossos pares.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

A MULHER E O SINO.


Isabel. Minha tia. Nasceu em 1920, no sítio do pai, no Suru, em Santana de Parnaíba. Como a maioria das famílias do local e época, foi criada dentro das regras da igreja católica sob a rigidez e autoridade dos pais. Assim, teve uma vida de dedicação à religião.

Quase virou freira, como a irmã mais velha, Rosália. Entretanto, não sei por qual motivo, já que pareceria muito natural seguir a vida religiosa, voltou-se para a família e cuidou dos pais e irmãos sempre que precisaram. Ficou com o pai até ele falecer em 1977, aos 89 anos. Ela era, então,  uma menina de 46 anos.

Dessa época, talvez uns quatro ou cinco anos antes, vêm minhas primeiras lembranças dela. Cabelos brancos, tez morena, meio índia, voz esganiçada e um coração maior que o mundo.

“Tisabel” era a tiazona de todos, pois não negava guarida à ninguém. Esteve sempre presente quando se fez necessário e, também, quando não. Qual sobrinho não se lembrará dela colocando a criança no colo, balançando as pernas e cantando o seu famoso “tuc-tutuc-tuc tutuc...” ?

Por proximidade habitacional, éramos, eu e meus irmãos, mais os primos João, Cida,  Carmen e Ana Cida, os sobrinhos que mais participaram de sua vida. A Ana Cida morou com ela até se casar. Quando o fato se deu, começamos, eu e meus irmãos, a nos revezar e dormir na casa dela para que tivesse companhia.

Diariamente, ela trabalhava no armazém de meu pai, na parte da tarde, até às 18 horas. Um pouco antes das 20 horas ele chegava para ver a novela e, sempre, se anunciava: “ó de casa!”.

Aos domingos, ela era presença garantida à mesa do almoço para comer aquele frango que minha mãe preparava e ela apreciava (e nós não aguentávamos mais).

O resto de sua rotina era dedicada à igreja. Participava de tudo, tendo sido professora de catequese e responsável pela primeira comunhão de, sabe-se lá, quantas crianças da paróquia. Ajudava na sacristia, cantava no coral, dava suporte às atividades, participava da quermesse, enfim, dedicação total.

E assim, ela foi levando a vida e a vida foi levando-a. Partiu num dia 6 de setembro, numa morte já anunciada, devido à diabetes e Alzheimer. Já não estava mais aqui quando se foi.

Teve, nesse tempo, a atenção e carinho que dispensou aos outros durante seus 86 anos.

Tempos depois, a igreja católica de Barueri foi demolida e construíram uma nova igreja. Maior e mais moderna, a igreja tocava o som de sinos eletronicamente, marcando as horas e anunciando as missas.
Recentemente, adquiriram sinos de verdade para substituir os eletrônicos. Meu pai recebeu, então, um comunicado oficial da paróquia informando  que ela seria homenageada e que um dos sinos levaria o nome dela: Isabel da Silva Serra.

Ela que gostava de se anunciar, continuaria anunciando! Minha tia virara um sino.

Um dia desses, cheguei ao trabalho com um croissant e um chá e ofereci ao meu amigo Fábio que recusou educadamente. Lembrei de minha tia e contei à ele o que ela declamava quando oferecia algo para alguma pessoa:

“Servido do pouco que mal me chega, dado de má vontade, deus permita que não queira”

E, pensando nela, de repente, me dei conta de uma coisa. Minha tia não tinha virado um sino! Seu próprio nome já anunciava que ela sempre fora um sino: Is a bell! É um sino!

Para uma anunciadora, sempre o  prévio, nunca o póstumo!

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Não foi bacana!


Para Ricardo Bauer Romero

Não foi bacana o dia de hoje,
tampouco, o modo como tudo se deu.
Não se espera da vida tão pouco,
nem que a morte seja tão muito.

Não há uma palavra amiga
que possa suprir um amigo.
E agora, o pulsar do coração
vai ter que se ver com a disritmia.

Porque o compasso saiu do passo,
porque num átimo de tempo,
o pulso cessou
e o riso escorreu de nossos dos lábios.

E tu que fostes bacana,
que te apropriastes de ser bacana,
partiu, à francesa.
Silente e sem despedidas.

Tínhamos histórias pra contar.
Pequenas, bobas, sacanas.
Tínhamos motivos à brindar,
E reencontros eternos a marcar.

Ah! Meu amigo Ricardo,
Há que se erigir um grande sorriso no ar,
não para disfarçar a nossa dor,
Mas, para lhe fazer justiça.

Você, o eterno sedutor de pessoas,
você que exalava carinho
e que, mesmo homem feito e pai,
viveu sempre como um bom menino.

Quantos Ricardos foram tão bacanas?
Não vamos admitir a dor.
Seria uma desonra à sua alegria.
Mas não, não foi bacana esse dia!


sexta-feira, 18 de julho de 2014

Só que não!


Não veio, na veia, a adrenalina.
No pulso, a pressão nem se auscultava.
O verbo, esse sujeito sem predicados,
misturava-se com palavras de baixo calão.
E a vida já nem era
e nem havia sido.
Só não morreu
porque não tinha existido.
E teve tudo o que podia ter tido:
o nada e o vazio.
Só que não!
O baixo calão poetizou
e à margem das letras
se fez poesia marginal.
O sujeito se armou de verbo
e de consciência.
E encheu-se de predicados.
A velha veia já necrosada,
ousada, encheu-se de poesia,
reviveu e pulsou.
E a vida escorreu pelo resto da vida!
Só que não!

Poema para um dia triste

(Para Will Cavagnolli e João Ubaldo Ribeiro)

Um imortal morre,
o despertador, não completa a chamada.
de quebra, o ônibus silencia.

Não há dor sem glória anterior,
não há palavras quando o palavrador se cala,
não há movimento quando o tempo precisa enlutar.

E o momento precisa purgar o passado,
se despojar do presente e contemplar o futuro.
Há dias, em que a fotografia das palavras
só pode se despir da perspectiva.

Aqui, Ali, Acolá

(para Cristiano Matos e Renata Lourenço)

Um aqui, no Ali,
outra acolá.
Uma cerveja Renata.
Um olho foca a cidade,
o outro, mais natural, Matos.
A banda está lá, no canto,
num lá lá lá lá, profundo.
que ora cala fundo,
ora grita, mudo.
Um rosto surge aqui,
o outro a colar nele.
Música, flash, contato, pele.
Bocas!
"Mais uma cerveja Renata, por favor!
Está quente por aqui!"
Por ali, também!